20 JUL 98 . LC024p
Arcebispo de Cantuária quer transformaçao e renovaçao
"Renovação de nossa visão, de nossa Igreja,
de nossa missão e de nossa vocação como bispos".
Este foi o tom da mensagem do arcebispo George Carey, no início
da 13a. Conferência de Lambeth, dirigida aos 800 bispos da Comunhao
Anglicana reunidos na Universidade de Kent, em Cantuária, Inglaterra.
O Arcebispo Carey disse também que a Comunhao Anglicana é um
espaço para os bispos partilharem angústias e alegrias, diferentes
compreensões e visões da Comunhão Anglicana, assim
como tudo o que nos une. "Trazemos tudo isso para ser transformado
pelo poder de Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo", afirmou.
A expectativa do presidente da Conferência e líder de 73 milhões
de anglicanos espalhados por 164 países é que nestas três
semanas de reuniões, estudos, celebrações e convívio "procuremos
ouvir o que Espírito Santo está dizendo as igrejas".
Sua preocupação, entretanto, é que o interesse maior
se concentre nos detalhes e o foco principal seja esquecido. Enfatizou
contudo que a tarefa desta Conferência é ser lugar de transformaçao
e de visão renovada em favor da Igreja de Deus e principalmente
do mundo.
Números assustadores - Em sua mensagem o arcebispo manifestou sua
preocupação com a probreza, fome, doença e morte que
grassam por todo o mundo. Mostrou alguns dados alarmantes que não
podem ser ignorados. Cerca de 3 bilhões de pessoas vivem com apenas
dois dólares por dia. E um bilhão e 300 milhões com
um dólar. Há um milhão de novos famintos a cada dia.
Além disso, 150 milhões não têm oportunidade
de frequentar escola. Estas estatísticas, segundo o arcebispo, têm
tudo a ver com o peso da impagável dívida externa, que por
certo será um dos temas fortes desta Conferência. De outra
parte, lembrou que o vírus da Aids "é uma maldição
em muitos países e afeta milhões de pessoas", disse.
O conflito racial em Ruanda dividiu a Igreja em duas, hoje está unida
outra vez, mas "choramos os 800 mil assassinados naquele genocídio",
lamentou. Também mencionou a avassaladora guerra do Sudão
que está transformando o país numa terra de viúvas
e órfaos.
"Nós amamos a Igreja porque através dela encontramos
fé em Cristo, esperança, bênção e renovação",
disse o Arcebispo. A seguir, salientou que não devemos ser contados
entre os que a desprezam, denigrem a sua imagem ou falam mal dela. "Eu
as vezes fico triste quando irmãos anglicanos ridicularizam nossa
Igreja publicamente e a criticam injustamente", desabafou. A verdade é que
este tipo de manifestação é quase tão antiga
quanto a própria Igreja. Quando o arcebispo Longley pensou em realizar
a primeira Conferência de Lambeth, um grupo de bispos sêniors
se opôs terminantemente e o deão da Abadia de Westminster
não permitiu que a celebração de encerramento da Conferência
fosse realizada na abadia.
O jornal The Times referiu-se a primeira Conferência de Lambeth como
um "chá eclesiástico" onde alguns senhores de 70
anos se deleitam com discontraído bate-papo a respeito de política
eclesiástica. Mas, segundo o arcebispo, o tempo mostrou que todos
estavam equivocados. Certamente muitos daqueles críticos da primeira
Conferência ficariam pasmados com a presente Conferência com
mais de 800 bispos de 37 Províncias e mais de 600 cônjuges,
partilhando seu próprio programa.
"Tal é o crescimento de nossa Comunhão", ressaltou.
Disse ainda que os críticos daquela época se surpreenderiam
ao ver mulheres bispas entre esse número pela primeira vez",
afirmou.
O Arcebispo enfatizou também que a escolha da Igreja não é entre
missão ou evangelismo. Segundo ele, sua principal tarefa neste mundo
dividido, doente e pobre é ser missionária e evangelizadora. "Nós
somos chamados para proclamar Cristo e existimos para a missão",
disse. E contou uma experiência acontecida há três anos
que tocou seu coração.
"Estômago não tem orelhas" - Quando o Arcebispo
e sua esposa Eileen estavam visitando um campo de refugiados fora de Cartum
com um dos bispos sudaneses que se encontra nesta Conferência, ele
disse o seguinte: "Arcebispo - disse ele com certa hesitação
- nós aqui temos um ditado: estômago vazio não tem
orelhas". O fato é que o povo precisa ser alimentado física
e espiritualmente. Assim, "a Igreja que existe para Deus no mundo
precisa estar preparada não apenas para espalhar o Evangelho mas
também para pressionar com sua ação" as grandes
questões do mundo hoje como dívida externa e ambiente. Segundo
o Arcebispo essa é uma parte com a qual a missão de Deus
precisa se envolver, mas que "as vezes nós negligenciamos",
confessou.
Barreira ou canal - "Renovar nossa vocação", esse é o
quarto e último ponto da fala do Arcebispo. Na qualidade de líderes "podemos
ser barreira ou canal", ele disse. O povo de Deus precisa ser transformado
corporal e individualmente pelo amor do Senhor, caso contrário a
visão de sua Igreja e seu povo jamais se tornarão realidade.
"Uma das minhas expectativas para esta Conferência - disse o
Arcebispo - é que mediante o aconselhamento mútuo, encorajamento
espiritual e partilha de visões de crescimento do Reino de Cristo
nos tornaremos efetivamente canais para a ação do Espírito
de Deus".
Finalmente lembrou que o ministério dos bispos é essencialmente
um ministério de serviço. Há contudo o risco de se
cair na tentação de um ofício dignificado pelas bonitas
capas e ornamentos pomposos. Entrentanto, assegurou, "os bispos não
devem evitar o real desafio da liderança episcopal". Esse desafio,
segundo ele, significa seguir a Jesus Cristo num discipulado com marcas
da simplicidade onde "nossa bondade, santidade e humildade possam
ser visíveis para todos". O Arcebispo espera que depois desta
Conferência todos possam olhar para a frente com expectativa e dizer
com João, segundo o relato do livro de Apocalipse: eis que Deus "faz
novas todas as coisas".